Editorial: A Luta Continua

O calendário indica que só agora o ano de 2020 vai cronologicamente se encerrando, prova de que nosso desejo de se libertar dele não acelera o tempo, nem foi suficiente para apagar suas dores, violências e angústias. Mais do que nós, que tudo apressamos a explicar, medir e recontar, os livros de contar o passado terão desafios para falar às novas gerações sobre as marcas indeléveis que este tempo deixa. A estrutura criada e sofisticada pelas assimetrias raciais é cada vez mais exposta e suas fissuras se agigantam, dando margem a novas revoltas cheias de porvires. A “hora de escutar” vai se materializando por meio da política do constrangimento, que refuta a historiografia tradicional e a hierarquização de saberes.

É tempo de contestação dos “silenciamentos orquestrados” pelo epistemicídio, como dito em setembro, e de compreender que não se rompem estruturas contando com o acaso; é preciso, então, continuar reclamando a humanidade da pessoa negra e soltar o brado que ecoa em nós, na busca por uma sociedade mais justa. No nosso dicionário, a Justiça abandonou a tez alva e a sua venda-de-reproduzir-violências: “A justiça é uma mulher negra. Uma mulher de tez escura e cabelos crespos, volumosos e longos a lhe coroar a cabeça, segurando uma espada em riste, enquanto equilibra uma balança de cobre. Ela não usa vendas, ao contrário, mantém os olhos abertos e atentos, do alto de sua cabeça erguida, para que não se lhe escapem as opressões e as injustiças que ela tem por missão corrigir.” [1]

No país em que às pessoas negras é relegado o espaço natural do cárcere, dos sombreiros e lonas que cobrem os nossos corpos quando tombam ao chão [2] e das mortes violentas, seja nos grandes supermercados que terceirizam tudo mas deixam o rastro de sangue, ou nas favelas onde as balas têm destino certo, se faz imperiosa a crítica e articulação de um novo sistema.

Não há fechamento de ciclo quando as feridas estão abertas e latejantes. Não há celebração de Natal e fogos de ano novo, porque impossível sentar-se à mesa sem indignação. É um momento histórico em que os protestos contra o racismo e as brutalidades impostas ao nosso povo ressoam Brasil afora, anunciando que a luta não cessará. No mês de novembro, mês de luta e de memória, Silvio Almeida [3], Djamila Ribeiro [4] e Preto Zezé [5], em rede nacional, refutaram os odes à consciência humana e reafirmaram o imperativo de “consciência negra”, esclarecendo os alicerces sociais, políticos e econômicos responsáveis pela estruturação de um país em que as pessoas subalternizadas seguem vivas, apesar do Estado.

A diáspora negra representa, assim, muito mais do que o trauma vivo do passado e as opressões do presente, que nos retiram o ar e sufocam os sonhos, mas para além disso, nos induz a olhar para o futuro a partir da perspectiva do “nós”, reclama o engajamento na construção de um novo amanhã. O futuro se faz hoje e a nossa ancestralidade é guia nessa jornada que seguiremos a trilhar. A luta continua.

REFERÊNCIAS

[1]VAZ, Livia; RAMOS, Chiara. Oyá: a Justiça é uma mulher negra. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/artigo/oya-a-justica-e-uma-mulher-negra/

[2] Homem em situação de rua morre dentro de padaria no Rio e local continua funcionando com o corpo no chão. Disponível em: https://noticiapreta.com.br/homem-em-situacao-de-rua-morre-dentro-de-padaria-no-rio-e-local-continua-funcionando-com-o-corpo-no-chao/

[3] Roda Viva – Silvio Almeida, 22/06/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=L15AkiNm0Iw

[4] Roda Viva – Djamila Ribeiro, 09/11/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jn1AtnzTql8

[5] Roda Viva – Preto Zezé, 16/11/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mNKzafWTnbI.