Editorial: É hora de escutar

Palavra é resistência. Quando falamos, existimos por nós e por nossos e nossas ancestrais. Por isso, sempre que tentam nos calar, a mordaça se projeta a todos e todas, e a violência se agiganta, tão doída quanto inaceitável. Pensar “lugar de fala” é se dispor a refutar a historiografia tradicional e a hierarquização de saberes consequente da hierarquia social [1]. Por isso, lugar de fala, embora não exija silêncio, demanda escuta responsável e ativa.  

Chimamanda Adichie ensina que há uma palavra da tribo Igbo, chamada nkali, que se traduz: “Ser maior do que o outro”. Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do nkali. Como é contada, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história do outro, mas de fazê-la a sua história definitiva.

Isso se mostra no sistema de justiça criminal. Como publicizam Ana Flauzina, Carla Akotirene, Denise Carrascosa, Felipe Freitas, Jader Alves, Juliana Borges, Laís Avelar, Poliana Ferreira,  Thula Pires, Vinicius Romão, dentre outros/as pesquisadores/as, há muitas vozes insurgentes contando suas próprias histórias, entretanto o olhar colonizador hegemônico reclama protagonismo na narrativa da história dos “objetos de pesquisa” para legitimar essas vozes, mesmo sob um enfoque crítico a um sistema intrínseca e reconhecidamente seletivo, racista e inconstitucional. O racismo, sobre o prisma de “olhos tão azuis”, é acessório, jamais a estrutura do tão denunciado sistema de gestão de corpos – finalidade precípua e não declarada desse sistema.

Indaga Saulo Mattos “Quando falarão?”, remete ao necroespaço da não-existência e dos silêncios impostos aos encarcerados, dentro e fora das prisões, a serviço da fonte de expiação de uma sanha punitiva orgástica da sociedade. Pesquisas qualificadas diversas, entretanto, já deram o texto e tom da denúncia do horror, gritando o protagonismo dessas vozes sociais que irrompem para romper o silenciamento epistemológico consolidado. Assim, com o afrofuturismo para refletir sobre o passado cuja história foi sequestrada e subvertida, modificar o presente e projetar um novo futuro a partir da ótica marginal no sistema de uma suposta justiça criminal, concluímos: Falaremos! E é hora de escutar!

REFERÊNCIAS

[1]RIBEIRO. Djamila. Lugar de fala. Coleção Feminismos Plurais. São Paulo: Editora Pólen, 2019, p. 64.

[2][4]MARQUES, Andressa. Afrofuturismo: a importância de novas narrativas. Disponível em: https://medium.com/@andressamrqss/afrofuturismo-a-import%C3%A2ncia-de-novas-narrativas-c2d77b60878d. Acesso em: 06.ago.2020

[3]MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Quando Falarão?. Boletim Trincheira Democrática, Ano 3 – N.º 9, Junho/2020.

Crédito da Foto: Clay Banks disponível no Unsplash

Autores:

Jonata Wiliam
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Mestrando em Direito Público – Universidade Federal da Bahia (UFBA). Advogado criminalista.

Vinicius Assumpção
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Advogado criminalista. Doutorando em Direito. Professor de Processo Penal.