Editorial: Aliado no discurso e nas redes sociais. E nos bastidores do machismo?

Inegavelmente temos presenciado ensaios de mudanças significativas no meio jurídico quando a pauta é gênero.  Movimentos que clamam por paridade contam com o apoio e a adesão de muitos juristas, eventos que insistem em silenciar as vozes femininas são alvos de críticas e represálias, e casos de machismo no judiciário são duramente repudiados com posts repletos de hashtags virais.

Reconhecemos que, talvez, a maioria dos homens já esteja convencida de que podemos ocupar a mesa de um seminário para falar além de Lei 11.340/06 e temas relacionados – ou de que ao menos entenderam que algumas coisas “pegam mal”, e que ter que responder nota de repúdio e reformular o evento às pressas desgasta a imagem. Entretanto, caro colega, apesar do discurso e do textão… Você é machista!

Sim, verdades duras demais para serem lidas rapidamente neste editorial. Os dados obtidos através do relatório “Advocacia em Números”[1] demonstram que 88,75% dos advogados não se consideram pessoas machistas, afinal, todos querem as mulheres livres e independentes… Até a página 02! Até o ponto de não disputar espaços de poder ou ameaçar os privilégios que a sociedade patriarcal lhe conferiu por você ser, simplesmente, homem. Ou então até o momento em que o cortejo nos corredores dos fóruns e as investidas no coffee break daquele evento não são rejeitados. Que grosseria, não é? Foi só um elogio…

Dentre as pessoas que autodeclaram terem sido vítimas de assédio sexual e importunação sexual, 91,4% são mulheres advogadas, conforme aponta o relatório.

Conversas de happy hour com perguntas de “como ascendeu tão rápido?” nunca envolvem o tempo de ascensão daquele Doutor de capacidade intelectual mediana e sobrenome tradicional. Agora, as conquistas daquela jovem colega serão sempre questionadas e relacionadas à sua beleza e à sua simpatia ou até mesmo a curiosidade de saber no escritório de quem ela “tomou café”.

Apesar de estarmos longe de uma paridade formal, é quase inegável que esse é o desejo de todos, ao menos no discurso. Todavia, nem todos os espaços físicos e simbólicos do mundo serão suficientes se não estivermos presentes no imaginário da sociedade enquanto seres qualificados e capazes de, de fato, ocuparmos qualquer local sem ter que justificar a todo instante nossos atos, presença e existência pela simples razão de sermos mulheres.

Não entendemos que nossas presenças devem ser aceitas, mas sim naturalizadas, pois não estamos pedindo licença para “ser” e para “estar”.

Somos e estamos.

REFERÊNCIAS

[1] OAB/BA. Comissão da Mulher Advogada. Advocacia em números / Relatório anual 2019.
Disponível em: https://issuu.com/oabbahia/docs/advocacia_em_numeros_2019.

Autoras:

Ana Luiza Nazário
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Especialista em Ciências Penais (PUCRS). Mestranda em Direitos Fundamentais e Justiça (UFBA). Membro do Núcleo de Estudos sobre Sanção Penal - NESP (CNPq/UFBA). Professora no Centro Universitário UniRuy. Advogada criminalista.

Fernanda Furtado Caldas
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Socióloga e advogada. Especialista em Política e Estratégia (UNEB). Mestranda em Direito Público (UFBA). Integrante do Núcleo de Estudos sobre Sanção Penal (NESP/UFBA).